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Há uma selva lá fora...

Um blogue sobre a selva: observações e comentários de um tipo.

14
Jun16

Reflexão casual

Há mal no mundo. 

E pior, há prazer no mal que se faz. 

Há um prazer malvado em fazer-se mal a outrem. Porque sim. Porque se quer. Porque simplesmente se convencionou.

E o mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E mudar a foto de perfil para as cores do arco-íris como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

"#SomosTodosOrlando"! É mentira! Porque não o somos. Tal como não somos todos Charlie. Porque não nos vemos como pessoas iguais. 

E, nesta desigualdade, há ainda quem consiga tirar prazer na maldade... na maldade de se achar superior. 

E o mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E mudar a foto de perfil para as cores de uma bandeira como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

Queremos acreditar que evoluímos como seres inteligentes que somos. 

Infelizmente, regredimos! Para pior! Porque o mundo é um lugar em que nos deixamos engolir pela informação em cascata, pelos gatinhos, pelos vídeos de fails e de casais a fazer sexo numa praia com a filha ao lado. 

E o mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E mudar a foto de capa com uma imagem cheia de mensagens de paz e amor como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

Já sei onde vou partilhar este texto: no meu perfil do Facebook. E no meu Twitter. E no meu Instagram. E no meu LikedIn. E vou receber um like, e depois outro. E outro.

Eish. Tantos amigos que tenho. Não conheço metade. Mas são meus amigos. Estão lá. Os números não mentem. 

E eu como reajo? Com gostos e partilhas... e snaps. E coloco uma imagem de uma frase pirosa da Beyoncé, do Fernando Pessoa ou de outro indivíduo qualquer.

Porque ninguém tem nada a ver com o que faço na minha vida. 

E reajo ao que me rodeia. Aos acontecimentos de Orlando, aos atentados em França, na Nigéria. Todos são iguais. Todos levam com a hashtag #PrayFor. Sou tão bom com o mundo. 

Quero mostrar. Quero sentir que os outros viram. 

Sou hipócrita! 

Mas somos todos. 

Já o Fernando Pessoa dizia que o poeta era um fingidor. E eu sou um poeta. Um poeta que olha para o mundo. É certo que é pela redes sociais. Mas o social não é o novo real? 

Tenho amigos mas nunca os vi. Tenho inimigos que não me fazem mal e os posso banir. E todos sabem onde estou porque eu tiro sempre a selfie da praxe. 

E o meu mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E colocar a foto da noite passada como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

Mas não muda. As redes sociais não mudam nada. Fazem "bola" pelo mundo. Aliás, fazem: apagam-nos, limitam o nosso sentido crítico, limitam aquilo que nos rodeia. 

Porque o mal do mundo não se compadece com gostos e partilhas. 

O mal do mundo não se compadece com fotos da National Geographic de refugiados sírios. 

O mal do mundo não se compadece com os mortos num atentado num país africano ou numa discoteca nos Estados Unidos. 

O mal do mundo é toda a gente. Todos nós contribuímos em algo para este mal. 

Tomei a decisão de viver mais a vida. Deixar as redes sociais um pouco de lado e usá-las para aquilo que elas servem: trabalho.

Vou tentar deixar de olhar para o pôr-do-sol como uma ótima foto do Instagram.

Olhar para um situação engraçada e rir-me. E depois contar aos outros numa conversa à volta de uma mesa de café. 

Ver um concerto sem tirar uma foto. 

Olhar para o mundo e ver que todos são iguais e que todos têm direito aos mesmos direitos. 

Ou, simplesmente, olhar para o mundo e apreciá-lo.

Se calhar, no final, serei mais feliz...

08
Jan16

#jesuischarlie

Logo Charlie Hebdo

 

Fez ontem um ano que a calma do meu estágio, iniciado praticamente no dia anterior, foi abalada por uma situação sem precedentes. Relembro a cara de choque de todos aqueles que se reuniram na redação da rádio Alfa para ver desfilar as imagens e as informações na televisão de um ataque que tinha conhecido momentos antes na redação de um jornal pelo qual praticamente nunca tinha ouvido falar. 

A informação era pouco clara: tiroteio no jornal Charlie Hebdo. Várias mortes confirmadas. 

"Mas o que é que raio é o Charlie Hebdo?", perguntei eu para os meus botões, alma caridosa vinda de Portugal para estagiar numa rádio portuguesa num país estrangeiro. Tinha começado o estágio vinte e quatro horas antes e não estava a perceber o alcance daquilo.

O que era o Charlie Hebdo? E um tiroteiro? Afinal era um jornal que tinha publicado imagens do Maomé em 2010? Mas porquê? 

Acho que naquele momento ninguém pensou o que era aquilo tudo: pensavam que era mais um maluco que tinha entrado aos tiros. 

Quando as informações começaram a chegar, por impulso, comecei a navegar nas páginas dos jornais franceses, das rádios e das televisões. TInha sempre o jornal Observador para acompanhar a informação em português. A Olívia, a minha orientadora de estágio na rádio, começou também ela à procura de outras informações nos sites de informação em contínuo. 

E olhávamos com atenção para aquilo que a televisão mostrava: os nomes das vítimas, os pormenores macabros, o "Allahu Akbar", os vídeos em direto de tudo o que estava a acontecer filmado por outros jornalistas de um jornal das imediações, os vídeos nas redes sociais, os nomes dos convertidos a uma versão errada da religião.

Relembro os funcionários e colaboradores da rádio que passavam pela redação e ficavam a olhar para a televisão, pasmados com algo que julgavam impossível: um ataque "no coração da Europa". 

Depois, as quarenta e oito hoas: a procura dos dois irmãos, o surgimento de um terceiro convertido, o terror instalado nos autocarros e comboios, as imagens macabras, o fim à Hollywood em que os convertidos morreram "à la" martir... porque quem é de Alá, quando morre, é como mártir, dizem eles...

... como mártir de coisa nenhuma, dizemos nós! 

Passado um ano, o terror reina num mundo que quer paz. Os atentados de sexta-feira 13 de novembro provam que "eles não se puseram a jeito". 

Continuamos a lutar pela liberdade. Neste momento, já não é liberdade de pensamento e de dizer o que queremos: é a liberdade de viver segundo as nossas escolhas. 

Em suma, continuo #jesuischarlie

Journalists are not the owners of freedom of speech, only its servants.

- Riss in "Charlie Hebdo", nº1224

09
Nov15

Nas noites frias de novembro...

Quando era pequeno, como todos os rapazes, gostaria de me tornar jornalista. E professor. E bombeiro. E jogador de futebol. E mais isto. E mais aquilo. Com o passar dos anos, provou-se que não tenho jeito nenhum para jogar à bola. Salvar pessoas de prédios em chamas, também não é, propriamente, a minha praia. 

Tudo isto para dizer que, apesar de todas as vicissitudes da vida, nasci num, chamado, "berço de ouro": nem sempre o que eu pedia os meus pais me davam mas vivia, dentro dos possíveis, com alguma estabilidade financeira para receber, de vez em quando, um brinquedo ou outro. 

Nunca, na minha vida, eu quis, quero ou quererei ser o centro da atenções seja do que for. Não é algo que está em mim. 

"A solidariedade, essa, é algo que me assiste. Sempre que posso, doo algo ao banco alimentar"

[Sim, como se isso fosse solidariedade].

É deste tipo de hipocrisia que eu falo. Somos todos solidários... até que chegam refugiados e se lembram dos sem abrigo. Quando a vaga de refugiados terminar, os sem abrigo voltam ao esquecimento nos seus cartões numa travessa qualquer. Mas todos continuamos a ser solidários porque contribuímos com 1€ para a Missão Sorriso, quando compramos um livro de receitas que ninguém vai ler ou um CD que poucas vezes vai ser tocado. 

Somos hipócritas: em todos os sentidos. E eu me incluo nesta hipocrisia. 

E porquê este intróito? 

Hoje fui a uma superfície comercial de Vila Real. Fiz as minhas compras e à saída deparo-me com um senhor, com uma criança ao colo, que me disse: "Dê-me qualquer coisa para o meu filho!". Como muitos que saiam do supermercado, àquela hora da tarde, ignorei o senhor e a criança. 

Ignorei-os como faço a todos os pedintes... como todos nós, abençoados pela divisão da riqueza, fazemos a todos os pedintes. 

O meu plano era simples: pousar as coisas no carro e voltar lá dentro à superfície comercial para verificar um produto numa loja. E foi isso que fiz. Pousei as coisas e voltei lá dentro. Quando saí, voltei a encontrar o senhor. E novamente repetia a frase "Dê-me qualquer coisa para o meu filho!". Foi aí que olhei para o homem que não devia ter mais que trinta anos e para a criança, não mais que quatro anos. Estavam ambos de camisa e o rapaz de calções. A noite estava a ficar fria! Aquilo não era sítio para andar ali com uma criança. 

Senti uma espécie de murro no estômago: pela primeira vez, pensei que, daqui a alguns anos, poderia ser eu a estar ali, a pedir por um pouco mais. 

Meti-me no carro, meti a chave na ignição e rodei-a: o rádio ligou-se na Antena 1 e transmitia o debate sobre o Programa de Governo e só falava dos indicadores económicos, das melhorias alcançadas por Portugal durante os quatro anos de Passos-Portas. Retirei o carro do estacionamento e entrei na fila para sair do parque. De um momento para outro, solto um sonoro "que se lixe!" e viro à direita para estacionar novamente. Como é óbvio, levo com buzinadelas. 

Respirei fundo. Não conseguia voltar para casa sem fazer algo. 

Fui ter com o homem e este foi o diálogo: 

 

- Foi você que me pediu para lhe dar alguma coisa há pouco, não foi? 

- Sim, fui! 

- Do que é que precisa? 

- Era um bocado de carne para...

- Mas é para si ou para o seu filho?

- É para ele!

- Muito bem: quantos são lá em casa? 

- Somos três. 

- Ok: fique aqui! Eu vou buscar pão para vocês e papa para o menino, está bem? 

 

Ele assentiu: fui lá dentro outra vez. Comprei pão, bolachas, queijo, fiambre e Nestum. Coisa pouca, eu sei!

Quando saí, o filho estava abraçado ao pai com uma cara feliz. Genuinamente feliz. 

Fui ter com eles, novamente: 

 

- Aqui está. Agora faça-me um favor: vá para casa. Isto não é o lugar para estar com uma criança. 

- Eu sei. - disse o homem timidamente, baixando a cabeça. 

- Como se chama? 

- David!

- Há quanto tempo está desempregado? 

- Há um mês!

- E em que trabalhava? 

- Na agricultura!

- E a sua mulher? 

- Ela não trabalha! Trabalhava nas vindimas e isso mas pouco faz. 

- E o menino? Como se chama? 

- Tiago!

 

Virei-me para o miúdo:

 

- Então, Tiago? Estás por cá? 

 

A ingenuidade de um menino de cerca de quatro anos veio à baila: um sorriso "fanado" iluminou-se na cara do rapaz.

Esse sim: foi um murro no estômago. O Tiago não devia estar ali. Nem o David. Não deviam estar naquele parque de estacionamento. 

 

- Faça-me uma coisa: vá para casa e amanhã, vá à Câmara Municipal. Eles podem-no ajudar! Não é vergonha nenhuma pedir ajuda! Às vezes, a vida prega-nos partidas. 

- Olha, a mamã já chegou... - diz Tiago apontando para o outro lado do parque. A minha cabeça girou e os meus olhos estacaram numa senhora que, ao ver-me, recuou dois passos. 

 

Percebi que a senhora teve vergonha em se aproximar e eu percebi que estava na minha hora de ir embora. 

O David disse-me que já iam para casa, que estavam à espera de um senhor que lhes foi buscar comida. Repeti-lhes para irem à Câmara Municipal e para fazer aquilo, não por ele mas pelo Tiago. Dei um aperto de mão ao menino e disse-lhe: "Foi muito bom conhecer-te!". Ele retribui-me com o maior sorriso que podia. 

Voltei para o carro e observei aquele família por uns breves momentos. E por breves momentos, rolaram algumas lágrimas pela minha cara. Meti a chave à ignição e rodei-a: novamente as colunas do carro soaram Pedro Passos Coelho a defender os progressos económicos durante a sua legislatura.

Desliguei o rádio. Mais hipocrisia, não!

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