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Há uma selva lá fora...

Um blogue sobre a selva: observações e comentários de um tipo.

19
Jul18

Os meus pais não são avecs!

Amine Rock Hoovr

 

Sou filho de emigrantes! 

Os meus pais foram embora de Portugal porque não havia forma de ter uma vida estável. Foram embora para me dar uma educação, para me pagarem um curso... 

Sou filho de emigrantes e tenho orgulho nisso! 

Mas não: os meus pais não são avecs.

Quando vêm a Portugal, eles trocam o "bom dia" pelo "bonjour", o "olha!" pelo "regarde!" ou o "quanto?" pelo "combien?". Contam as histórias do trabalho, vibram quando vêem um galo de Barcelos na feira e têm orgulho de vestir a camisola da Seleção. 

Talvez o meu pai goste de ouvir o "Sou português emigrante/Chora, chora/Linda chora!" ou o Tony Carreira num volume para lá dos décibeis normais! 

Talvez a minha mãe tenha um sotaque estranho (que toda a gente deteta menos eu!) e que a denuncia como emigrante. 

Mas não: os meus pais não são avecs. 

Os avecs não são aqueles que berram um "Jean-Michel, tu vas tomber caralho!" num espaço público! 

Os avecs são aqueles que se dizem portugueses mas, à primeira oportunidade, dizem que "Portugal? C'est la merde!" Os avecs são aqueles que alugam um carro na "France" e dizem que é seu! Os avecs são aqueles que se esquecem das origens, de quem são, do que foram fazer lá para fora! Precisam de provar, a "toute le monde", que são melhores do que aqueles "provincianos lá de Portugal". 

São aquele esterótipo de merda que se cola a todos os tugas lá da "France".

Está no nosso sangue de português típico querermos ser melhores que o nosso vizinho. Aliás, somos o único povo que se consegue dar bem em qualquer lado... menos em Portugal.

Os avecs e o português típico não aprenderam uma coisa: humildade! Porque o português típico é o rídiculo que critica tudo mas não tem tomates para sair; os avecs são os rídiculos que saíram mas que olham de uma forma superior para quem cá fica. 

No fundo, todos eles são rídiculos por se acharem superiores. 

Não: os meus pais não são avecs!.

Os meus pais são emigrantes. 

Os meus pais dizem com orgulho que são portugueses. Os meus pais têm o galo de Barcelos, um crucifixo e uma Nossa Senhora na mesma mesa. Os meus pais pagam a assinatura da TVI para ver o "Somos Portugal", mesmo quando eu digo que isso é (lá está!) parolo! Os meus pais tiveram-nos no sítio para sair daqui e olham para Portugal contando os dias para ter aqueles quinze dias durante o mês de agosto para voltar à terra. O Skype aproxima mas não substitui o abraço apertado de uma zona de chegadas do aeroporto! 

Eu tenho quatro abraços do meu pai por ano: dois em agosto e dois em dezembro. Sempre no mesmo local! Sempre no aeroporto! Quando estou com eles, sei que, ao fim de dois dias, com eles sinto-me exausto. Querem saber da minha vida. Logo eu que deixei de dar satisfações! Querem saber onde vou, com quem vou, quando volto... 

"Hoje não vais!" 

"Pai, tenho 26 anos!"

Mas no fim, quando vão embora, voltar à rotina custa! Passamos as três semanas seguintes a ligar todos os dias, a perguntar se está tudo bem, a falar por todas as aplicações possíveis. E querem ver como está tudo: se todos ficaram bem.

"Logo à noite, vais estar na casa dos avós? É que quero falar para eles! Por onde? Pelo Skype!", diz a minha mãe.

Armamo-nos em fortes, engolimos a saudade e continuamos as nossas vidas... 

13
Ago16

Chama-se liberdade, meus amigos...

 

A liberdade para criticar está muito na moda: por um lado, há sempre grupos "organizados" nas redes sociais que reclamam de quem diz uma piada sobre um tema sensível; por outro esses grupos "organizados" têm liberdade para reclamar sobre o que quer que seja. 

Admito: sou um reclamador profissional. No entanto, não reclamo "porque sim": reclamo quando tenho uma razão, ainda que mínima, para o fazer. Não gosto muito de críticas negativas (afinal, quem gosta?). Mas recebo-as. Escuto-as. Interiorizo-as. Matuto. Durmo sobre a questão. No dia seguinte, vamos lá melhorar os erros. 

Quem é meu amigo nas redes sociais sabe que, quando escrevo algo por lá, uso de um humor caraterístico: tento olhar para uma notícia e vejo como me posso rir com aquilo. E como fazer os outros rir também!

Tal como na vida, tento ir buscar aquele pormenor: olho bastante para o que está à minha volta e concentro-me nos pequenos detalhes, naquilo que as pessoas deixam passar. Epah! Deixem-me ser feliz assim! 

Gosto de que tenham opiniões diferentes das minhas. Dá para debater sobre vários pontos de vista. 

E sabe do que gosto também? Da minha terra! Da minha "santa" (porém beata) terra que tem temas tabu muito bem definidos. 

Neste momento, estou bloqueado na página de Facebook da junta da minha freguesia. Razão? Oficialmente, não sei! Nunca comentei rigorasamente nada naquela página! Apenas, e como sou estudante deslocado, gosto de me manter a par daquilo que se faz pelo lugar onde nasci e cresci. 

No entanto, e apesar de não saber quais as razões que me levaram ao bloqueio, posso suspeitar. 

Um simples "A sério que vão trazer o X? Não tinham uma coisa melhor?", escrito no meu perfil foi a razão. Foi das poucas vezes que escrevi sobre a minha freguesia no Facebook. Sobre a bendita festa popular em honra à Santa. Nenhum comentário anterior à freguesia tinha sido negativo.

Ora, o meu perfil de Facebook não é aberto! Aquilo que publico é por camadas: alguns conteúdos são publicados para algumas pessoas, outros para outras mas nada é para o público geral. Ora, posto isto era fácil descobrir quem podia ter sido culpado: tinha que ser meu amigo, ser da minha freguesia e teria de ter algo a ver com a junta. E não existiam muitas pessoas nessa posição. 

Se tinha razões para criticar a escolha? Sim. Normalmente, os artistas que estão na berra (o artista tinha acabado de lançar um dueto com um cantor internacional) fazem concertos fracos quando vão às festas ao ar livre. E também não gosto propriamente da música que ele faz.

Resultado: o concerto do cantor foi um fiasco . No entanto, o bloqueio continua. 

Nunca pedi satisfações a quem quer que seja sobre isso. Não tenho medo de ir à junta perguntar: "Ó faxabor, bloquearam-me porquê?". Apenas tenho mais que fazer.

Aquilo que fiz, no meu espaço para um grupo limitado de pessoas, foi dar a minha opinião. Seja certa, seja errada, é a minha opinião! Tenho direito a ela! E não abdico dela! Chama-se liberdade, meus amigos... 

14
Jun16

Reflexão casual

Há mal no mundo. 

E pior, há prazer no mal que se faz. 

Há um prazer malvado em fazer-se mal a outrem. Porque sim. Porque se quer. Porque simplesmente se convencionou.

E o mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E mudar a foto de perfil para as cores do arco-íris como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

"#SomosTodosOrlando"! É mentira! Porque não o somos. Tal como não somos todos Charlie. Porque não nos vemos como pessoas iguais. 

E, nesta desigualdade, há ainda quem consiga tirar prazer na maldade... na maldade de se achar superior. 

E o mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E mudar a foto de perfil para as cores de uma bandeira como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

Queremos acreditar que evoluímos como seres inteligentes que somos. 

Infelizmente, regredimos! Para pior! Porque o mundo é um lugar em que nos deixamos engolir pela informação em cascata, pelos gatinhos, pelos vídeos de fails e de casais a fazer sexo numa praia com a filha ao lado. 

E o mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E mudar a foto de capa com uma imagem cheia de mensagens de paz e amor como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

Já sei onde vou partilhar este texto: no meu perfil do Facebook. E no meu Twitter. E no meu Instagram. E no meu LikedIn. E vou receber um like, e depois outro. E outro.

Eish. Tantos amigos que tenho. Não conheço metade. Mas são meus amigos. Estão lá. Os números não mentem. 

E eu como reajo? Com gostos e partilhas... e snaps. E coloco uma imagem de uma frase pirosa da Beyoncé, do Fernando Pessoa ou de outro indivíduo qualquer.

Porque ninguém tem nada a ver com o que faço na minha vida. 

E reajo ao que me rodeia. Aos acontecimentos de Orlando, aos atentados em França, na Nigéria. Todos são iguais. Todos levam com a hashtag #PrayFor. Sou tão bom com o mundo. 

Quero mostrar. Quero sentir que os outros viram. 

Sou hipócrita! 

Mas somos todos. 

Já o Fernando Pessoa dizia que o poeta era um fingidor. E eu sou um poeta. Um poeta que olha para o mundo. É certo que é pela redes sociais. Mas o social não é o novo real? 

Tenho amigos mas nunca os vi. Tenho inimigos que não me fazem mal e os posso banir. E todos sabem onde estou porque eu tiro sempre a selfie da praxe. 

E o meu mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E colocar a foto da noite passada como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

Mas não muda. As redes sociais não mudam nada. Fazem "bola" pelo mundo. Aliás, fazem: apagam-nos, limitam o nosso sentido crítico, limitam aquilo que nos rodeia. 

Porque o mal do mundo não se compadece com gostos e partilhas. 

O mal do mundo não se compadece com fotos da National Geographic de refugiados sírios. 

O mal do mundo não se compadece com os mortos num atentado num país africano ou numa discoteca nos Estados Unidos. 

O mal do mundo é toda a gente. Todos nós contribuímos em algo para este mal. 

Tomei a decisão de viver mais a vida. Deixar as redes sociais um pouco de lado e usá-las para aquilo que elas servem: trabalho.

Vou tentar deixar de olhar para o pôr-do-sol como uma ótima foto do Instagram.

Olhar para um situação engraçada e rir-me. E depois contar aos outros numa conversa à volta de uma mesa de café. 

Ver um concerto sem tirar uma foto. 

Olhar para o mundo e ver que todos são iguais e que todos têm direito aos mesmos direitos. 

Ou, simplesmente, olhar para o mundo e apreciá-lo.

Se calhar, no final, serei mais feliz...

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